quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Despedidas

A chuva escorria pela janela do táxi como se fosse lágrimas.Como as minhas.Talvez eu não devesse se quer ter saído de casa naquele dia.Ter dito que estava doente, sei lá.Eu estava quase chegando nesse ponto mesmo.Desci e acabei me molhando, assim como meus pobres relatórios.Mas quem se importava?Eu não.
Metade de uma bacia de purê de batatas não parecia suficiente naquela noite para saciar a minha dor e desânimo de fazer qualquer coisa.Até de levar a colher carregada de purê até a boca.O barulho do telefone tocando me assustou de tal forma que enfiei a cara no purê e derrubei a bacia no chão.Uma esperança cresceu em mim e não consegui me levantar.
- Filha? – Tudo se desmoronou como num castelo de areia – Sou eu. A mamãe – ah...Jura? – Pensei em ligar porque...Você não liga mais.Só pra saber se você está bem.Mães também têm saudades – Meus olhos se lotaram de mais lágrima e pulei do sofá para pegar o telefone.Meti o pé no aparadouro, mas e daí?
- MÃE? EU TAMBEM TENHO SAUDADES DE VOCE! EU QUERO IR EMBORA PRA CASA!
-Mas querida...Você está em casa!
- NÃO ESSA CASA MÃE! – eu chorava igual bebê.
- Mas meu bem o que houve? – de repente me lembrei que quando minha mãe fazia esse tipo de pergunta não era aconselhável responder.Afinal, era minha mãe.
- Ah... – mudança de voz – Eu...Cortei o dedo descascando batatas, só isso – o que de fato não era mentira.
- Ora! Então pare de drama Isabela Kemper! Você sempre foi dramática.Desde criança sempre gostou de fazer drama com tudo.Lembro-me uma vez que seu avô... – revirei os olhos.
- Estou bem mãe! Ligo na semana que vem! Te amo, tchau! – desliguei.Ah, qual é? Eu não tava com paciência nem pra mim mesma.Sentei-me novamente em frente da TV e recuperei minha bacia.
Comecei a pensar.Pensar sobre tudo.Sobre Landon, sobre Henry...Sobre North High...Uma série de pessoas e acontecimentos foram se passando pela minha cabeça até eu perceber que estava lambendo a ponta da colher de purê já há algum tempo.
Afinal, valia mesmo a pena largar tudo em NY?Tudo o que eu havia construído até então?Uma vez meu pai me disse que as pessoas felizes são aquelas que arriscam tudo na vida.Que não tem medo de jogar tudo pro alto pra correr atrás do que querem.E eu definitivamente não estava feliz.E nem ficaria.Não ao lado de um homem que não me corresponderia, e ainda por cima tendo que vê-lo todos os dias no meu trabalho.É cara.No meu trabalho.Eu não ia ter sucesso nenhum mesmo.Em nada.
Decidi que havia tomado a decisão certa e pronto.

Acordei sem muita animação para começar a preparar minhas malas.Decidi que não ia levar muita das minhas roupas.Se era pra mudar de país eu ia mudar com estilo.Literalmente.Olhei em volta.Eu tinha pensamentos bem diferentes dos atuais quando pisei ali.Soltei uma risada irônica. De repente meu olhar se votou para a segunda estante da mesinha do telefone.Aquele livro púrpura novamente.Hesitei um instante se devia pegá-lo e lá estava eu folheando meu anuário “North Hight – Turma de 87”.Eu realmente não fazia idéia do que estava por vir no dia em que o encontrei por acaso na minha mudança.Landon tinha a mesma expressão facial da de hoje.Um olhar manso de canto de rosto, talvez um pouco sarcástico.Meu celular tocou retirando-me de minhas lembranças colegiais.
- Bom dia Isa...Srta. Kemper!
- Oh...Bom dia Sr. Delaney – respondei sem o mesmo entusiasmo dele.
- Estou ligando para avisá-la que nosso vôo será as 20:00.Espero que já esteja se preparando.
- Ah, sim, claro.Estou.
- Muito bem então.Que horas eu te pego?
- Ah...que horas...Que horas me pega?
- Sim, para levá-la ao aeroporto.
- OH! CLARO! – risada forçada – Ah, creio que eu posso pegar um táxi Sr. Delaney.
- Tem certeza?
- Sim.
- Como preferir, até mais tarde!

Eu tinha que ter criado aquele clima ridículo não é? Eu era especialista nisso.E ele estava mesmo empolgado.Eu também deveria estar, afinal a decisão de ir foi minha.Apenas minha.Droga! Falei fechando o anuário com certa raiva.Eu precisava passar na Own Business para acertar minha saída!
Quando desci do carro e olhei aquele prédio empresarial me deu uma certa nostalgia antecipada.Respirei fundo e peguei o elevador.

- Bom dia Cyntia! Preciso assinar alguns pap...
- Eu sei querida! Eu sei de tudo – disse ela se apressando em pegar os papéis necessários para eu assinar.Seus olhos estavam marejados – EU NÃO ACREDITO – berrou ela chorando e olhando em volta se recompondo – que a srta. vai sair da Own Business!
- Oh Cyntia! – Me senti feliz, ao menos alguém vai sentir minha falta – Mas eu não vou embora para sempre.Algumas vezes terei de vir a NY para acertar acordos entre a McDell e a Own Business – e ao dizer isto senti uma pontada no peito de ter que voltar lá.Ela me olhou com um olhar doce por trás dos oclinhos e sorriu.
- Agora vamos logo com isso! Detesto despedidas! – Eu também, pensei.
- Srta. Kemper? – virei-me.
- A Srta. não achou que ia embora sem ao menos me dizer adeus não é mesmo? – o Sr. Tanehill estava parado bem ali segurando um pequeno buquê de flores.
- Sr. Tanehill! Mas é claro que não! – Me aproximei e me perguntei se deveria abraçá-lo.Tarde de demais.Eu já havia abraçado.Ele respondeu o abraço meio sem jeito mas me abraçou também.
- Cuide-se na Inglaterra Srta – e me entregou o buquê.Seus olhos também estavam marejados apesar de ele tentar esconder – A Inglaterra tem o maior índice de morte por álcool depois da Irlanda – falou ele com todo aquele ar sábio.Não consegui conter o choro.
- Certo – falei – Eu vou...me lembrar disso.
- NÃO-A-CRE-DI-TO! – berrou Linda Kraft desfazendo o sorriso que existia em minha face – Então é verdade mesmo? Tipo...MESMO? – Ela parecia mais feliz do que nunca – Você vai embora pra...nunca mais voltar?
- Vou Linda.Vou.
- YES! – falou ela dando as costas saltitante.Que se foda, pensei eu. Meu olhar se desviou para a sala de Landon.Ele estava parado com as duas mãos dentro do bolso nos observando por traz das persianas.Mas eu o via perfeitamente.Seu olhar era frio e indecifrável.Quando nossos olhares se encontraram ele deu as costas.
- Orgulhoso como sempre – falei em voz baixa.
- Perdão srta? – Perguntou Cyntia.
- Hã...Nada.Bem, acho que já vou indo, já me demorei demais por aqui – Dei um abraço rápido em todos.Quer dizer, Cyntia e sr. Tanehill, porque se falo todos parece que foi muita gente.
- Boa Sorte – disse uma voz atrás de mim.Mas eu já sabia de quem era.Me virei e encarei Landon com o olhos tão cheios de lágrima que se eu fizesse qualquer movimento elas cairiam.
- O-Obrigada.Para você...Para o Sr. também.
- Aproveite muito sua estadia e lembre-se de que se você se casar com um inglês o seu visto de morada permanente sairá muito mais rápido – Ele havia dito isso na frente dos funcionários mas não parecia se importar muito.Virou-se e bateu a porta.Bateu mesmo!Desta vez as lágrimas caíram e eu saí da Own Business sem data para voltar batendo os saltinhos com Angelina Aniston costumava fazer muito bem.Peguei o elevador e dei uma ultima olhada nele.Quando dei por mim já estava no térreo cercada pelo imenso hall de entrada.

- AH! QUAL É? – escutei alguém berrar atrás – VOCE VAI MESMO EMBORA SEM ME DIZER TCHAU SUA VADIA?
- DANIEL! – berrei de volta para o homem parado de braços abertos no hall de entrada do prédio – Estamos no meio do hall de entrada! – corri e lhe dei um abraço apertado chorando.
- Ah e daí? Você vai embora mesmo, ninguém vai mais lembrar quem eu chamei de vadia. – eu o olhei como se eu fosse uma criança abandona – Ah! Para com isso!Up garota, você ta indo pra Inglaterra com o maior gato que eu já vi!- dei uma leve risada – Tem algo programado pra fazer agora?
- Bem...Na verdade não.Tenho que estar no aeroporto as 20:00, só isso.
- Vai estar.Mas antes você vai para uma despedida – falou ele piscando o olho direito – Comigo.
- Daniel... – falei enquanto ele passava seu braço por cima do meu ombro para caminharmos.
- Ah, o que é?Vamos! Se não nunca mais te pago Coca Diet na vida!
- Ei, fui eu que paguei!
- Não faz mal.Deixa que agora eu pago, mas a gente pode trocar a Coca Diet por uma Vodca com limão?




Isa.