A paisagem cinza de certa maneira me confortava. Caos, eu sabia, mas dentro daquele turbilhão conseguia me encontrar. Soprei fortemente dentro de minhas mãos e esfreguei umas as outras em uma tentativa inútil de torná-las mais quentes. Amaldiçoei o momento que sai de casa e deixei as minhas luvas felpudas sobre a bancada da cozinha. A mudança de casa e toda aquela papelada burocrática só estavam me deixando mais louca (e mais congelada). Nunca havia mudado de casa por conta própria. Quando era adolescente eu e meus pais nos mudamos apenas uma vez, e o máximo que eu fiquei encarregada foi de enrolar a coleção de xícaras de porcelana da mamãe naqueles plásticos-bolhas. (E elas acabaram quebrando-se porque, infelizmente, estourei todas as bolhas antes de se quer enrolá-las). Contudo, agora era diferente. Estava fazendo algo por mim. Começaria uma nova vida em NY e a primeira coisa a fazer era conseguir um bom emprego. Era para lá que estava indo.
O sapato fino tintilhava sobre o concreto liso e úmido da avenida. Olhando toda aquele vórtice capitalista acabei lembrando da última vez que havia vindo para Nova York. Se bem me recordava, fora no último ano de faculdade, com algumas velhas amigas do meu antigo colégio North Hight.Viemos para comemorar nossa formatura, nos embebedar e nos perder na noite. Que viagem foi aquela! Jurei nunca mais tomar outro ‘sex on the beach’ pela minha vida inteira! Mas valeu a pena.
Olhava os rostos apressados das pessoas que passam por mim. Era quase impossível não ser atropelada naquela multidão, mas eu já estava costumada. Meus olhos passeavam pelas vitrines de móveis, babando naqueles sofás que pareciam até relíquias do século dezoito. Eu realmente amava esse período histórico. Todos aqueles bordados feitos à mão na estampa do sofá soavam até como música. Não, era realmente música. Meu celular tocava e vibrava na minha bolsa. Tive que praticamente jogar tudo que estava dentro dela no chão para enfim, poder encontrá-lo.
- Alô? Mãe? Oi mãe! Como está indo? Tudo bem? – disse prendendo o celular entre meu ombro e minha orelha enquanto abaixava-me e recolocava todos meus pertences novamente de volta à bolsa. - Não, a mudança está indo muito bem! – disse suspirando. Era melhor mentir para minha mãe sobre isso do que dizer a verdade e ter que ouvi-la dando sermão de como ela estava certa e como eu deveria ter ficado em Delaware morando para sempre junto com ela. Às vezes ainda acho que minha mãe pensa que sou aquela menina estranha que ia de manhã para North Hight e voltava a tarde a tempo de um leite com biscoitos. Mas acho que todas as mães pensam isso de suas filhas, então ignorei. – Lógico que não, mãe! Na verdade, estou indo para uma entrevista de emprego agora mesmo! É! – Ergui-me colocando a bolsa no ombro e continuei a caminhar. – Não, mãe! Não estou inventando! Eu realmente estou indo! Estou com entrevistas marcadas até o final da semana. É! Eu sei! – Ergui as mangas do meu blazer escuro e olhei as horas. – Na verdade ,mãe, se eu não me apressar vou chegar atrasada, então nós conversamos depois, okay? Eu te ligo mais a noite! Beijos! – Disse fechando o celular e apressando o passo.
*
- Então me diga Srta... – disse checando novamente o nome na lista. – Kemper, certo?
- Sim. Isabela Kemper.
- Certo, Srta. Isabela. Diga-me, em qual faculdade disse que se formou? - perguntou o empresário que do outro lado da mesa de mogno negro reajustava seus óculos de armação grossa.
- Yale. Formei-me
Um silencio incomodo tomou a sala. Eu tentava ajeitar-me melhor naquela cadeira grande de couro enquanto o homem folheava as páginas de meu currículo, pigarreando quando virava as páginas. Estranho, mas era melhor ficar quieta.
- Impressionante Srta. Keper. Realmente impressionante. Já teve experiência com outros empregos senhorita? Ou este será ou seu primeiro? – Perguntou fechando as páginas e apoiando o braço um sobre o outro, enquanto encarava-me por cima das lentes.
- Não, senhor. Esse será o ou primeiro emprego.
- Mas a senhorita, costa aqui, tem 27 anos. Não seria meio tarde para um primeiro emprego? – Disse soando sarcástico. Algo que fez-me querer saltar daquela cadeira e jogá-lo do décimo quinto andar, mas me segurei. Não se brinca com a idade de uma mulher.
- Bem, senhor... Depois que voltei de Liverpool, eu tinha uma oferta muito boa de emprego
- Então, muito bem, senhorita Isabela! – Disse ele levantando e se inclinando para um formal aperto de mão. – Iremos analisar melhor sua ficha e te ligaremos até o final da semana, mas posso dizer que você tem um pouco mais de vantagem diante os outros! – Falou dando-me uma piscadela. Eu apenas sorri orgulhosamente, agradeci seu tempo e retirei-me da sala.
Deixei meu número com a secretária e direcionei-me para o elevador. Pela primeira vez estava fazendo algo que realmente era pra mim. Algo só meu. Há muito tempo tinha me esquecido como era esse sentimento. Não tem como defini-lo. Estava orgulhosa de mim mesma. Estava , em muito tempo, feliz. Um trabalho ótimo (com um salário ótimo também!), uma casa nova e um novo começo. Não sei o que faltava mais em minha vida. Tudo estava indo conforme o planejado ou até melhor. Iria ficar com esse emprego de vez. Sabia que iria consegui-lo, então teria a semana inteira livre para colocar em dia a papelada da mudança (e a mudança em si, também...) e esperar o telefonema e comemorar.
A vida de volta nos trilhos.
(Veri.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário