Aquelas caixas de papelão pareciam mais leves do que realmente eram. Tirei a última caixa de meu carro e coloquei-a no hall de minha casa nova. Olhei para a sala vazia e dei-me por satisfeita , em partes, porque sabia que agora cabia a mim (e somente a mim) a descarregar e arrumar todas as minhas coisas nos lugares devidos. Mas antes, um remédio para alergia. Sabia que muito daquelas tralhas que estavam lá a mais tempo do que deveriam, sufocadas de pó e ácaros (coisa que realmente não era bom para a minha rinite). Então tomei o remédio (junto com um pouco de coragem) e comecei a abrir todas aquelas trocentas caixas coladas com fita adesiva.
Comecei pelas tralhas de cozinha, porque sabia que eram aquelas que, provavelmente, teriam sofrido mais dano durante o percurso da mudança. Xícaras e pratos no lugar, então passei a arrumar as coisas da sala, em geral aqueles presentes e estatuetas pequenas que você ganha de seus familiares no natal e realmente não sabe onde colocar. Bem... Eu arrumei um lugar bem isolado no canto da lareira. Já era um começo. Cozinha e sala feita, então passei para as coisas do meu quarto. As roupas já estavam no armário, juntamente com os meus sapatos e todas aquelas parafernálias que se coloca no criado mudo ao lado da cama.
Olhei para o hall e percebi que haviam mais umas dez caixas que sabia que eram coisas de banheiro e afins, mas havia uma em especial, que não estava me recordando da onde era. Já estava meio velha e manchada e a fita crepe já estava descolando. Quando a abri a tampa, desenterrei muitas coisas que tinha optado por esquecer. Meus olhos marejaram-se. Não por tristeza, mas por saudade. Saudade de minha infância. Em cima, havia algumas antigas fotos de família. Entretanto, uma em especial me abalou. Ao pegá-la me lembrei daquele dia no parque com meu pai. Eu tinha por volta dos dez anos e, em um sábado, ele levou-me para o parque e tentou me ensinar futebol, dando a desculpa que eu não poderia crescer sem saber jogar o esporte de nossa terra. Eu realmente não ligava para o futebol, mas eu estava mais feliz por estar junto com meu pai. Eu quase não o via. Eu estudava em um turno integral e papai trabalhava até tarde em sua loja de ferramentas, então quando passávamos tempo juntos eu realmente aproveitava. Na foto estava eu com luvas de goleiro no ombro de meu pai. Ele estava tão feliz aquele dia. Ambos estavamos. Queria tanto poder vê-lo pelo menos mais uma vez para dizer o quanto eu sentia a sua falta, ou para dizer pelo menos adeus. Só que, infelizmente, o tempo não volta, e aquilo realmente me matava.
As lágrimas rolavam pelo meu rosto e eu nem mais me importava
Foi colocar o livro sobre o vidro da mesa para o telefone tocar. Corri pelo chão de tacos encerrados. Com certeza cera e meia não fazem um bom par. Podemos dizer que eu não corri para o telefone, eu derrapei até ele. Atendi-o quase ofegante. Era Joey Tanehill, o executivo que havia me entrevistado. Ele não era o diretor geral, mas era o diretor da minha repartição, então eu havia que passar primeiro por ele para depois, em uma segunda entrevista, falar com o supervisor geral, o temido ‘Chefe’. Falou-me que eu havia sido convocada para uma segunda entrevista com o Diretor. Se ele tivesse me contado isso pessoalmente eu juro que daria-lhe um belo de um beijo estalado de felicidade, mas por telefone contive-me em um gritinho de felicidade (nada profissional, eu sei.). Ele riu pela minha reação. Seria terça-feira às nove da manhã. Peguei um papel e anotei. Agradeci muito feliz, me despedi e desliguei. Fui saltitando até a geladeira e colei na porta o horário para eu não me esquecer, mas eu duvidaria que eu esquecesse.
Hoje iria sair para comemorar. Cinema e depois um belo jantar. Perfeito para um novo começo.
(Veri.)
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