O dia amanhecera frio. Realmente frio. Peguei o meu melhor casaco e me arrumei para a nova entrevista. Um coque bem feito sempre caía bem, sempre. E modéstia à parte, eu ficava muito bem de coque. Estava ansiosa, confesso, mas confiante. O que daria errado? Meu currículo era ótimo e eu tinha tudo pra ser contratada. A menos, é claro, que o ‘Chefe’ não fosse com a minha cara. Olhei-me no espelho e pensei ‘hoje começa uma vida nova pra você’, e assim fui.
O prédio comercial era realmente bonito e sofisticado. Havia várias empresas comerciais instaladas ali, mas devo admitir que o andar onde se encontrava a OwnBusiness era o mais atraente. Era empolgante a idéia de trabalhar lá. Todos usavam roupas chiques e sociais e pareciam muito cultos e bem informados. A telefonista loira e simpática me concedeu que entrasse na sala do ‘Chefe’. Entrei devagar, pois meu salto estava fazendo um certo barulho no piso de madeira banca. A poltrona onde ele se encontrava estava virada de costas para mim.
- Bom dia, senhorita Kemper – disse uma voz masculina e rude por traz da poltrona. A porta foi fechada e me sentei.
- Ah...Bom dia, senhor... Desculpe-me, receio que não me informaram seu nome... – disse eu quase gaguejando.
- Isso, definitivamente, não é necessário. Seu currículo? – disse ele solicitando que lhe desse o pedido.
- Ah...Claro - Coloquei-o em cima da mesa e empurrei para que pudesse pegar com mais facilidade.Sua poltrona de couro azul marinho continuou virada.Pensei em perguntar se não iria virar, mas achei ofensivo e deselegante. Tão deselegante quanto ele ficar de costas para mim. Havia algo naquela voz, algo familiar. Eu estava em NY. Talvez fosse comum ouvir vozes familiares com toda aquela gente. Ele pegou o currículo e ao fazer expôs uma manga semidobrada que mostrava que ele usava uma camisa social branca. A mão era jovem, o que mostrava que ele não podia ser muito mais velho que eu. Aquilo, de certa forma, me confortou.
- Bem, como o senhor pode ver, me formei em Yale e morei 2 anos em Liverpool...
- Senhorita Kemper, responda apenas o que lhe for perguntado – disse de maneira grosseira e arrogante. Não respondi. Senti uma ponta de humilhação e um desânimo em relação ao emprego. Havia uma fila de mais ou menos 7 pessoas lá fora que também haviam sido convocadas para a segunda entrevista e ele podia perfeitamente não me contratar. Os outros podiam ser tão capazes e competentes quanto eu.
- Impressionante, impressionante... – disse de maneira mais cortês. Ele continuava de costas. O que ele pretendia? Já tinha vtisto entrevistadores serem grossos, mas até hoje não chegou ao meu conhecimento nenhum que tenha feito uma entrevista de costas para o entrevistado. Continuei quieta, se quer agradeci. Criou-se um clima desconfortável, pois ele também permanecia quieto.
- Está contratada – disse. Meus olhos arregalaram.
- C-como, senhor?
- Está contratada. Comece amanhã – Fiquei absorvendo suas últimas palavras uns instantes. Ele havia dito ‘contratada’, sim!
- M-mas (tentei não gaguejar, mas infelizmente não foi possível) o senhor...O senhor não vai nem ouvir o que os outros lá fora têm a lhe dizer? – as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse controlar o que ia dizer.
- O chefe aqui sou eu, não sou? Eu decido quem vai ser contratado – eu havia chego a uma conclusão: aquele homem era louco. Louco e imprevisível.
- E eu decido que você é a contratada, Isabela. – A poltrona virou. Meu corpo congelou ao ver quem era o entrevistador. Era a mesma face, os mesmos olhos e a mesma expressão só que 10 anos mais velho. Landon Dylar. O mesmo canalha de sempre. Ele me olhava com o mesmo sorriso de canto de boca. Entrei em choquei e disse palavras sem sentido algum, como naquele dia. Senti-me a adolescente de antes.
- Você...! – foi tudo o que consegui dizer. Como era possível? Era coincidência demais! Eu estava enxergando bem?! Apesar da miopia aquele rosto jamais em enganaria.
- É bom vê-la outra vez – disse ele calmamente. Ele continuava calmo, mas acontece que, eu não era mais aquela adolescente boba de antes. Não. Eu era uma adulta. Era outra. Muito, muito diferente da que ele havia conhecido. Não era? Claro, que era. Eu mudei muito desde aquele dia no corredor dos bebedouros em NorthHight. Uma sensação de raiva e rancor me dominou.
- Claro Sr.Dylar – disse eu me esforçando para não parecer irônica. Ele sorriu. Agora tinha rugas de expressão que não se formavam naquela época.
- Vejo que lembra do meu nome... – expressão tornou-se de nojo – Nada mal para um começo. Você mudou tanto... Está uma mulher... E céus! Como está boni...
- Sim. Mudei. Afinal foram dez anos, não? – minha voz estava um tanto alterada. Eu já estava de pé. Só queria me levantar e sair.
- Sim... E o que dez anos não fazem não é? Mas devo confessar, sua face é a mesma das lembranças que tenho dos tempos de colégio – ele deu uma breve risada. E ele tinha lembranças? De que? De como me induziu a beijá-lo? – Bem agora vou poder ver a nova Isabela todas os dias.
- Eu ainda não disse que aceitei o emprego – Minha face permanecia neutra. Ela não relatava expressões de tristeza nem felicidade, mas a dele havia mudado agora.
- Não?! Ora...
- Eu realmente preciso ir Sr. Dylar. Meu currículo? – estendi a mão.
- Mas Isabela, me diga ante se...
- Kemper, senhorita Kemper, senhor - ele pareceu surpreso.
- Se vai trabalhar aqui ou não, senhorita Kemper – falou dando ênfase nas últimas palavras.
- Entrarei em contato.
- Nesse caso creio que o currículo possa permanecer aqui – Ele queria jogar. E sabia. Muito bem na verdade.
- Então até logo, senhor Dylar – achei melhor encerrar ali. Ele era, definitivamente, atraente. E charmoso. E cafajeste! Sim, cafajeste! Não podia me esquecer de tudo. Nunca. Dei um leve sorriso forçado e não retribuí o aperto de mão oferecido. Dei as costas com a bolsa enganchada no braço e saí ofegante.
- Senhorita Kemper! Senhorita Kemper! – era a voz da telefonista – A senhorita precisa assinar um papel! Senhorita Kemper! – passei reto e fingi não ouvir. Eu não podia parar, e não queria parar. Estava andando tão rápido que quase corri. Ó céus! E agora? Eu realmente precisava do emprego. Era uma grande oportunidade para a minha carreira. Mas com ele lá... Justo com ELE? Como a vida era injusta! Havia lágrimas nos meus olhos, o que só fui perceber quando estas caíram molhando meu mero decote. Eu só queria ir pra casa, e chorar mais. Precisaria refletir antes de começar.
(Isa.)
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