Por que justamente quando estamos em um ócio quase mortal e sentamos na frente da televisão parece que todos os programas bons desaparecem? Pois é, estava desmantelada na frente da teve desde cedo e já havia perdido a noção de quanto tempo estava ali debaixo das cobertas. Percebi que o meu prato de purê de batata havia se esvaziado outra vez. Se eu não estivesse em um estado totalmente depressivo, deixaria o purê para lá e ficaria lá, imóvel. Mas situações drásticas requerem medidas drásticas, ou seja, mais purê de batata. Então levantei-me tão devagar e tão preguiçosamente que parecia até que estava em câmera lenta, arrastando minhas pantufas até a cozinha. Por mais estranho e bizarro que isso pareça, purê sempre foi meu ante depressivo desde...sempre. Quanto estava triste, ao invés de sentar chorar rios de lágrimas vendo um filme ultra romântico com um pote de sorvete de creme entre as pernas (que é meio tonto, convenhamos), eu pegava um prato de purê com bastante ketchup, sentava e chorar rios de lágrimas vendo um filme ultra romântico (que além de ser meio tonto, é um tanto nojento). Peguei um pouco daquela pasta amarelada no fogão e fui até a geladeira pegar outro frasco de ketchup. Fechei a porta com os pés e voltei a minha posição original, quentinha e depressiva debaixo das cobertas.
Zapiava os canais sem se que prestar qualquer atenção nos programas. Estava praticamente em um estado hipnótico. Nem se quer assustei quando o barulho estridente do telefone fez-se ecoar pela sala. Deixei que tocasse. Nem que Deus viesse a terra e me pedisse para levantar eu levantaria. Estava totalmente fora de cogitação.
“Você ligou para Isabela Kemper. No momento não posso atender, por favor, deixe seu recado que assim que possível retornarei a ligação. Obrigada!”
-Bip-
“Filha? Aqui é a mamãe! Por que não ligou? Estou preocupada. Ligue assim que chegar. Beijos. Te amo!”
-Bip-
Suspirei pesadamente e coloquei outra porção generosa de purê em minha boca. Havia me esquecido completamente de ligar para minha mãe. Tadinha. Talvez estivesse realmente preocupada. Ligaria mais tarde, mas não agora. Peguei novamente o controle e continuei a passar os canais. De novo o telefone tocou. Céus! As pessoas não tiram férias desse bendito telefone? Estava prestes a tira-lo do gancho, por que aquilo estava realmente impossível. A secretária disparou e eu continuei ouvindo.
“... retornarei a ligação. Obrigada!”
-Bip-
“Anda... Atende... Eu sei que está aí...”.
Meu coração saltou quando reconheci a voz. Rolei os olhos e encarei a secretária eletrônica como se encarasse nos próprios olhos de Landon.
“Okay, talvez não esteja realmente aí. Bem Isa... digo... Senhorita. Kemper... Não queria te apressar nem nada do gênero, mas realmente preciso da sua resposta sobre o emprego. Não leve isso para o lado pessoal nem nada do gênero, e não pense que estou me gabando. É só que, eu sei que a minha empresa é boa. Eu sei que essa oportunidade de emprego é, também, muito boa, e sei que você o quer. E eu, pessoalmente...” Ele disse abaixando a voz “..gostaria muito que você se juntasse a nossa empresa, porque acho que você tem um futuro aqui. Não gostaria de desperdiçar uma funcionária tão boa quanto você parece ser para outras empresas que eu sei que você não brilharia tanto quanto aqui... Então... Reconsidere a oferta e pense sobre isso. Pense com carinho. Esperarei sua ligação. Até breve”.
-Bip-
-BABACA! – Eu gritei pegando a primeira coisa que vi e tacando em direção a secretária eletrônica, como se aquilo de alguma maneira o machucasse. O objeto se estilhaçou contra a parede branca causando um estardalhaço. Gemi de desgosto ao perceber que havia tacado o vidro do meu melhor Ketchup contra a parede da sala. Definitivamente nada bom.
Grunhi e deitei a minha cabeça no braço do sofá. Peguei a almofada e apertei contra o meu rosto. Aquilo não poderia estar acontecendo. Por mais que eu achasse fútil e superficial todas aquelas coisas que acabara de ouvir na secretária, por mais que quisesse abafar a voz de Landon de minha mente, não conseguia, por que por mais que odiasse aquilo tudo, sabia que ele estava certo. O emprego era realmente muito bom, a oportunidade, a empresa e tudo mais (e, convenhamos que, o salário também não era ruim). Não sei se estava disposta a jogar tudo aquilo no lixo por causa de um romance bobo de colegial.
Então dei-me conta do quanto idiota estava sendo.
Jogar aquela a minha vida pela janela por não gostar do meu chefe? Onde eu estava com a cabeça? A maioria das pessoas do mundo tem problemas com os chefes! Eu não seria a primeira nem a última. Quanta infantilidade.
Levantei-me depressa e alcancei o telefone. Encontrei o numero da secretária de Landon dentro de minha agenda telefônica. Disquei rápido o numero e coloquei o telefone sobre meu ombro enquanto esperava.
-Escritório de Landon Dylar, Cyntia falando.
- Oi, Olá Cyntia! Aqui quem fala é a Isabela Kemper. De ontem... se lembra? A louca que saiu correndo sem assinar os papéis!
- Ah! Oh, sim! Lembro sim! E falando nisso você ainda tem que assinar aqueles papéis... Política da empresa!
-Ah, sim. Sem problemas. Então, será que a senhora poderia dar um recado para o senhor Dylar por mim?
- Não quer que eu transfira a ligação? Ele me pediu para que quando você ligasse, eu passase o telefone para ele! - Eu ri diante de tanta prepotência de sua parte. Como tinha tanta certeza que eu iria ligar?
-Não, não. Está tudo bem. Pode anotar?
- Claro. Fale.
-Diga ao senhor Dylar que aceito a proposta de emprego e que começarei amanhã de manhã. – Após alguns segundos a secretária respondeu.
- Anotado, senhorita. Mais alguma coisa? – Eu refleti um instante.
- Ah! Sim! Crescente como um post script. Diga que eu não reflito as coisas com ‘carinho’. Eu faço o que acho certo. - Ela permaneceu em silêncio e eu sabia que ela não estava notando.
- Erm... Okay... Anotarei.
- Obrigada, Cyntia. Até amanha.
- Até, senhorita Kemper.
Desliguei. Amanha prometia mais do que eu poderia imaginar.
(Veri.)
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